Da luta contra o Foro de SP ao voto com islâmicos sobre mulheres, o novo Brasil de Ernesto Araújo

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Na noite da última quinta-feira (11), horas depois de o presidente Jair Bolsonaro surpreender até os assessores mais próximos ao anunciar o filho Eduardo como seu preferido para a embaixada brasileira em Washington, diplomatas foram avisados sobre uma reunião marcada por “motivos de força maior” para a primeira hora da sexta-feira, no gabinete principal do Palácio do Itamaraty.


Na manhã seguinte, perto da famosa tapeçaria que reproduz o planisfério de Marini – um mapa desenhado em 1502, primeiro da história em que o Brasil aparece representado -, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, confirmaria ao ex-escrivão da Polícia Federal que apoiava sua indicação ao cargo mais alto da principal embaixada brasileira.

O encontro durou pouco mais de uma hora. Na saída, Eduardo Bolsonaro falou a jornalistas sobre o aval do chanceler à empreitada. Ernesto Araújo, simultaneamente, contava à BBC News Brasil que o principal assunto havia sido outro.

“Conversamos sobre uma pauta nossa de coordenação sobre temas de política latino-americana. Muito especialmente a questão do Foro de São Paulo, que vai se reunir no final do mês e é um tema que nos preocupa e a outras pessoas também.”

Enquanto muitos começaram a especular sobre possíveis atritos entre o chanceler e o deputado, o apoio de Araújo à nomeação não foi surpresa para nenhum de seus auxiliares e conselheiros mais próximos. “Eduardo é o grande – e um dos únicos – apoiadores do Ernesto”, disse uma embaixadora à reportagem, sob condição de anonimato.


O ministro sabe que disputar protagonismo com o filho do presidente tende a ser uma batalha perdida, a exemplo de outros ministros que entraram em conflito com outro filho, Carlos. Ernesto Araújo e Eduardo Bolsonaro estão do mesmo lado na gestão bolsonarista e lideram uma agenda comum que ocupa o topo das preocupações do presidente: consolidar uma alternativa conservadora ao famoso grupo criado em 1990 por Luiz Inácio Lula da Silva e o então presidente cubano Fidel Castro para articular forças de esquerda na América Latina e no Caribe.

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Na entrevista mais detalhada que concedeu desde que assumiu o cargo, em janeiro deste ano, Araújo explica as bases do que tenta emplacar como Aliança Liberal Conservadora – uma versão à direita do Foro de S. Paulo que reúne elementos-chave da lógica bolsonarista, pautada pela ruptura com pautas globais como as mudanças climáticas e princípios históricos da agenda de direitos humanos, como a consolidação de direitos LGBT, o combate a exploração sexual por meio da educação na infância e o repúdio à violência policial.

“Acho que às vezes os conceitos atrapalham a realidade”, diz o Araújo durante quase uma hora de conversa. A frase serve como fio da meada para tentar entender a cabeça do chanceler.

Você pode assistir à entrevista completa, na íntegra, no canal da BBC News Brasil no YouTube.


O fim da diplomacia como ela acontecia até hoje
A principal ruptura da gestão de Araújo à frente do Itamaraty é com a própria tradição da pasta.

“Nós precisamos fazer coisas que sejam importantes para o povo brasileiro e não apenas coisas que sejam importantes para outros diplomatas”, disse o ministro à BBC News Brasil ao defender a nomeação de Eduardo Bolsonaro em meio a acusações de nepotismo e despreparo do deputado. “Não é nepotismo nenhum.”

Bolsonaro não tem formação em Relações Internacionais e sua única vivência no exterior, além de viagens acompanhando ou representando o pai, foi um intercâmbio em 2005, durante a faculdade, quando trabalhou numa lanchonete.

“Acho que ter, nessa hipótese, um embaixador não de carreira em uma embaixada como Washington ajudaria nesse processo muito necessário de romper um ensimesmamento do Itamaraty e romper um ciclo vicioso onde nós trabalhamos só para nós mesmos e esquecemos a sociedade do lado de fora.”

A exemplo do que ocorre nos EUA de Donald Trump, de quem Araujo e Bolsonaro são admiradores confessos, o nacionalismo está na base desta ruptura com o passado recente.


Eduardo Bolsonaro surpreende ao vestir boné pró-Trump durante visita oficial aos EUA, em março
“O Brasil é parte de um movimento de recuperação do papel de nação como ator no sistema internacional. Uma nação que atue tanto domesticamente quanto no sistema internacional em função do bem do seu próprio povo”, diz.

A Aliança Liberal Conservadora, que Araújo tenta criar como oposição ao Foro de S. Paulo, ressoaria estas ideias junto a países como EUA, Hungria, Itália, Argentina e Colômbia.

“Há uma sensação de que a gente pode derrotando percepções ideológicas que dizem que você não pode ter nação, não pode ter povo, tem que ter padrões globais que valham para todos independentemente das suas identidades e só assim você pode atingir a prosperidade.”

“Isso está acontecendo cada vez mais, e ao mesmo tempo, países e atores internacionais que acham que para isso você não precise renunciar à sua identidade e se transformar em uma geleia geral, como a gente diz aqui no Brasil. Pode-se ter uma comunidade internacional forte, dinâmica, pacífica, próspera, construída a partir de nações também saudáveis, pacíficas, com povos vivendo em harmonia e prosperidade”, avalia.


Fachada do Palácio do Itamaraty, em Brasília
LGBTs como ‘coisas abstratas’
A diplomacia brasileira é conhecida no exterior pela vanguarda em temas ligados a minorias.

O país foi, em 2003, o primeiro do mundo a propor uma resolução na Organização das Nações Unidas (ONU) sobre “Direitos Humanos e Orientação Sexual”, abrindo caminho para discussões sobre o tema na instituição. Em 2008, patrocinou um documento na Organização dos Estados Americanos (OEA) para a prevenção da violência contra pessoas LGBT. No mesmo ano, o país foi o primeiro a realizar Conferência Nacional de Promoção dos Direitos das Pessoas LGBT, um modelo repetido no exterior desde então.

Para Araújo, no entanto, o Brasil pré-Bolsonaro “procurava se pautar por aquilo que não desagrada ninguém, que procurava sempre ver ‘se eu posso dizer isso, se eu posso dizer aquilo’, que cada vez se limitava mais dentro do politicamente correto”.

Na visão do chanceler, o país “vinha simplesmente copiando o discurso oficial e padrão do politicamente correto, e isso não é influenciar. Estávamos simplesmente indo com uma onda”.

Araujo ilustra a mudança de maré quando explica, por exemplo, por que o Brasil retirou menções ao termo LGBT em sua recém-apresentada candidatura ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.


Ernesto Araujo, sobre LGBTs: “Nossa plataforma é colocar a nossa contribuição no Conselho de Direitos Humanos em favor da defesa dos direitos humanos reais de pessoas reais e não de coisas abstratas que são sempre usadas para distorcer a realidade e a realidade daquilo que as pessoas geralmente querem”
“Nossa plataforma é colocar a nossa contribuição no Conselho de Direitos Humanos em favor da defesa dos direitos humanos reais de pessoas reais, e não de coisas abstratas que são sempre usadas para distorcer a realidade e a realidade daquilo que as pessoas geralmente querem”, diz.

A reportagem pergunta se LGBTs não são pessoas reais ou algo concreto – no Brasil, segundo dados de 2017 do Ministério de Direitos Humanos, o Brasil registra 552 pessoas mortas por ano vítimas de homofobia – ou uma a cada 16 horas.

“(O termo) é usado como se fosse simplesmente um mecanismo para controle do discurso, daquilo que se pode falar, dizer, e não como algo que seja usado realmente para a igualdade às pessoas com opções sexuais diferentes nesse sentido aí”, responde Araújo.

“Nós queremos defender os direitos das pessoas, né, independentemente de a gente usar ou não uma determinada denominação padrão ou não.”

Acordo com islâmicos em discussões sobre mulheres
O ministro defende uma ruptura definitiva com o pensamento de esquerda a partir do que chama de “resgate de valores cristãos e ocidentais” – em coro com o presidente, que já fez críticas ao alinhamento de governos petistas com países como Irã, Rússia e China.

Recentemente, no entanto, o Brasil se afastou das principais democracias europeias e das Américas ao se unir a países como Arábia Saudita, Paquistão, Bangladesh, Afeganistão e Egito em discussões na ONU sobre mulheres.

Emissários de Araújo apoiaram estes países em discussões sobre referências à educação sexual como forma de combate a violência contra mulheres e casamentos forçados.

“O que aconteceu? Estamos junto com o Ocidente ou esta é uma pauta em que estamos mais próximos dos islâmicos?”, pergunta a reportagem.

“Tem que ver o que é Ocidente, né?”, responde o chanceler.

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